palavras e imagens perdidas

terça-feira, abril 08, 2008

Caminhar na sombra

A foto perdida desta semana é ilustrada com magnifico poema de Álvaro de Campos. Provavelmente aquele poema que exprime correctamente tudo que eu sinto e tenho vindo a sentir





LISBON REVISITED (1923)
NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica. Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo. Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim, Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho! (Álvaro de Campos)


Oh céus! Que insalubre é a vida!

Retorno

Terça-feira, Agosto 28, 2007


Foi esta a data do meu último post, fazendo uma re-apresentação(?!)
Passados quase oito meses, decido que está na hora de dizer mais algumas barbaridades.
Para que não sabe vivo com o meu irmão apenas. Meus pais divorciaram-se e de simples estudante stressada passei a ser mãe de um homem de 21 anos, dona de uma casa de mais de 30, estudante sem tempo e trabalhadora após ser estudante.
Experimentei novas sensações desde que os meus pais sairam do purgatório familiar:
  • Poupança. Sim! Tudo e mais alguma coisa. Que se lixem as marcas, as bebidas com gás, as pizzas, as roupas, etc. As compras passaram a ser mensais e passei a usar a frase: "o que for mais barato" Se conseguir tudo por um euro, já me dou por muito contente.
  • Jardinagem. É muito interessante e agradavel ver um jardim cheio de flores e relva verdinha e fresquinha a nascer. Mas isso não acontece no meu campo baldio. Tenho erva daninha, cinzas (de uma outrora lareira em uso), lixo,trevos de três folhas, e mil e uma coisas das quais sinceramente eu não me lembro. Então o que fiz? Ancinho e enxada fazem maravilhas. Arei, tirei pedras,usei luvas grossas e fiquei cheia de dores nas costas para ter um terço do terreno limpo. Consegui. Mas hoje (8 de abril de 08) já não se nota
  • Ser empregada doméstica. Nunca tinha sido. Fazer o mesmo trabalho que faço em casa e ainda ganhar por isso pareceu-me o paraíso. Agora, respeito-as mais e dou-lhes o devido valor.
E outras mais sensações das quais vou lembrando à medida que os dias passarem.
O que aprendi neste ano todo foi:
É muito fácil mandar uma pinocada, parir filhos, cuidar deles de uma forma despreocupada e partir anos depois e tentar encontrar a felicidade. E deduzia eu que quem tem filhos sente-se feliz. (Pelo menos até eles sairem de casa...e não o inverso como foi comigo)
Tal como a música conhecida: "quem faz um filho, faz por gosto".
O grande problema disto tudo é que a maior parte das pessoas esquece-se que está a lidar com seres humanos tal como eles e de todo não foram tratadas da mesma forma.
Revolta? 100% de revolta. E então?
Se é para ter filhos nestas condições é melhor nem fazer sexo. Pratiquem o celibato e vão para um convento. Sejam monges ou freiras. As coisas serão bem mais produtivas do que ter um filho e esquecer-se dele anos depois.
Dizem que um filho é para toda a vida? Será?

E actualmente até que prefiro morar assim. Melhorei, cresci, mudei, tornei-me independente...
Sim houve benefícios.
Mas as saudades....essas não morrem não... apenas nos matam diariamente.

E já dizia Mafalda Veiga:
"Tão bom pudesse o tempo parar, quando tudo em nós se precipita...quando a vida nos desgarra aos sentidos e não espera...há quem dera..."